A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a mais de 27 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no caso da chamada “trama golpista”, repercutiu entre lideranças evangélicas brasileiras. As opiniões se dividem entre os que veem fortalecimento do campo conservador e os que consideram o episódio prejudicial à imagem pública dos fiéis.
União em torno da direita
O pastor Jorge Linhares, presidente da Igreja Batista Getsêmani (Belo Horizonte-MG), classificou a decisão como previsível, mas acredita que a situação pode fortalecer a direita.
“Ele seria preso nem que fosse apenas um dia, apenas para manchar a imagem dele. Contudo, isso poderá unir ainda mais os evangélicos em torno de um nome forte que possa substituí-lo nas próximas eleições”, disse.
Para Linhares, a influência política dos evangélicos já é reconhecida em setores estratégicos, como a mídia, que estaria se ajustando para dialogar mais com o público cristão.
Fim da ideia de “salvador da pátria”
Já o pastor Álvaro Oliveira Lima, presidente da Cemades (Convenção Evangélica dos Ministros das Assembleias de Deus no Espírito Santo), avalia que a condenação enfraquece a imagem de Bolsonaro como líder incontestável dos evangélicos.
“Virou só mesmo uma retórica que não resultou em nada positivo para o povo de Deus”, afirmou.
Segundo ele, muitas igrejas têm preferido adotar postura mais neutra, priorizando a missão espiritual em vez da militância política.
Credibilidade abalada
Mais crítico, o teólogo e pastor Rodolfo Capler, pesquisador da PUC-SP, afirmou que o episódio mancha a reputação pública dos evangélicos.
“O ‘candidato dos evangélicos’ jamais poderia sequer ser citado em um caso dessa gravidade. Isso é um escândalo histórico e teológico. A missão da igreja não se enfraquece, porque vem de Cristo. Mas a credibilidade pública sim, esta foi duramente abalada”, avaliou.
Capler relacionou a estagnação no crescimento dos evangélicos, apontada pelo IBGE, à polarização política e às divisões internas nas igrejas.
Confiança em Deus
O pastor Lisaneas Moura, da Primeira Igreja Batista do Morumbi (SP), pediu serenidade e confiança em Deus diante do cenário.
“Parte da nossa fé é confiar que na política e nas injustiças Deus tem o controle. Mesmo quando discordamos, precisamos resolver confiar em Deus”, disse.
Ele ressaltou que os cristãos podem protestar, mas sempre com respeito às leis e autoridades.
Cenário em disputa
As reações revelam que, após a condenação de Bolsonaro, os evangélicos estão divididos entre manter forte atuação política ou priorizar uma postura mais espiritual e distanciada das disputas partidárias.