O projeto do Muro Eterno da Oração Respondida (Eternal Wall of Answered Prayer), idealizado há mais de duas décadas, finalmente começou a sair do papel no Reino Unido. A obra marca um passo decisivo na visão de Richard Gamble, 56, que transformou sua fé cristã em um dos projetos arquitetônicos mais ambiciosos do país.

A iniciativa, orçada em 45 milhões de libras (cerca de R$ 288 milhões), prevê a construção de um monumento de 51 metros de altura, com inauguração prevista para 2028. A estrutura, que terá forma inspirada na fita de Möbius, deve abrigar 1 milhão de relatos de orações respondidas, acessíveis por meio de um aplicativo.

Uma visão que começou com uma cruz de madeira

A história do monumento remonta a 2004, quando Gamble acreditou ter recebido de Deus a missão de carregar uma cruz de madeira de quase três metros por 120 quilômetros durante a Semana Santa. O esforço marcou o início de uma jornada de fé que culminaria na concepção do Eternal Wall.

Depois daquele episódio, ele afirma ter recebido uma visão ainda mais ousada: construir um monumento que reunisse testemunhos de intervenção divina na vida de pessoas comuns.

“Construir algo tão grande e assumidamente cristão… acho que ninguém acreditava que isso realmente aconteceria”, afirmou Gamble, em entrevista no escritório do projeto, próximo ao canteiro de obras.

Um monumento cristão em meio a um país cada vez mais secular

O Reino Unido vive um cenário de declínio do cristianismo. Segundo o Pew Research Center, apenas 21% dos britânicos dizem orar diariamente, e a proporção de cristãos caiu para 49% na última década. Em contraste, grupos evangélicos independentes — como o que Gamble frequenta, a Chroma Church, em Leicester — têm mostrado crescimento.

Para Gamble, o monumento é uma resposta a esse silêncio religioso:
“É como se existisse um mundo secreto no Reino Unido onde ninguém sabe que Deus está vivo e respondendo às orações.”

Apoio nacional e design inovador

O projeto ganhou força após o empresário Andrew Edmiston, filho do bilionário e filantropo cristão Lord Robert Edmiston, doar o terreno às margens da rodovia M6, próximo a Birmingham. Outras 22 mil pessoas também contribuíram para viabilizar a obra.

Em 2016, o Royal Institute of British Architects lançou um concurso global para selecionar o design. Entre 133 propostas de 28 países, venceu o conceito britânico baseado na fita de Möbius — uma forma contínua e infinita, sem simbolismos cristãos tradicionais. Especialistas avaliam que esse caráter abstrato facilitou a aprovação pelo Conselho Municipal de North Warwickshire, em 2020.

“Em um mundo polarizado, esse formato evita ser interpretado como provocação religiosa”, explica Mathew Guest, sociólogo da Universidade de Durham.

Um milhão de testemunhos

Padronizado como uma grande faixa branca, o monumento comportará 1 milhão de “tijolos” — pequenos blocos retangulares, cada um vinculado a uma história de oração atendida. Os testemunhos podem ser enviados em texto (até 500 palavras) ou vídeo (até 3 minutos) e incluem experiências de cura, emprego, libertação de vícios, reconciliação familiar ou nascimento de um filho.

Nem todas as orações relatadas são respondidas com um “sim”. Gamble afirma que o projeto também acolhe relatos de espera e até de “não” como resposta divina.
“O importante é manter a conversa com Jesus”, diz.

Objetivo: provocar reflexão

Visível a quase 10 km de distância, a estrutura deve chamar a atenção de milhares de motoristas diariamente. Gamble acredita que o monumento pode funcionar como um convite à fé em um país cada vez mais secularizado.

“Se alguém olhar e pensar: ‘Linda arquitetura, mas não acredito nesse conteúdo’, isso já é uma vitória. A pessoa considerou a mensagem — e isso é um começo.”

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