A saúde mental se desestabiliza quando esperamos que a vida só brilhe nos instantes extraordinários. Ela pode ser afetada quando depositamos o sentido da vida, a expectativa de felicidade e o bem-estar apenas em momentos especiais, pois o coração que vive exclusivamente à espera do raro esquece-se de habitar aquilo que pulsa agora.
Quando condicionamos a alegria ao encontro com as pessoas “certas”, às férias sonhadas, à viagem almejada, ao enriquecimento, à festa esperada, à compra da casa ou do carro novo, à conquista de um título ou ao elogio recebido, restringimos o campo da experiência emocional. Tornamo-nos dependentes do extraordinário e, consequentemente, mais vulneráveis às frustrações.
O bem-estar sustentável emerge da capacidade de reconhecer microfontes de prazer e significado. No cotidiano da vida real, existem inúmeras oportunidades de experimentar bem-estar todos os dias: estímulos sensoriais simples, práticas contemplativas, espiritualidade, percepção corporal e consciência do momento presente. Esses elementos ativam circuitos de regulação emocional, ampliam a resiliência e reduzem tanto a reatividade quanto a vulnerabilidade ao estresse.
Há ainda uma verdade que sustenta a nossa humanidade: precisamos uns dos outros para ter saúde mental. O inferno não são os outros, pois os outros também são salvação. Ainda que existam pessoas que nos roubam, sempre haverá aquelas que nos devolvem. Não se trata de dependência emocional, mas de uma experiência relacional de manutenção da vida — o toque de ternura que reorganiza, o olhar que ancora, o vínculo que nos devolve ao eixo.
A saúde mental, portanto, é essa capacidade de agradecer como quem respira: de forma natural e contínua. É perceber graça em dormir e acordar, andar e sentar, comer e beber, falar, cantar e silenciar, amar, abraçar, olhar e ver, contemplar e despertar. É confiar no potencial de superação plantado em nós, que nos sustenta diante das inevitáveis vicissitudes da vida. A gratidão é fundamento tanto da resiliência quanto da esperança.
E lembre-se: reconhecer que precisa de ajuda também é um sinal de saúde mental. Por isso, se perceber essa necessidade, não hesite em procurar apoio profissional.
Cuide da sua saúde mental.
Texto de Carlos José Hernández
Médico psiquiatra, doutor em Medicina
Clarice Ebert
Psicóloga (CRP 08/14038), terapeuta familiar e de casais, mestre em Teologia
Clarice Ebert (@clariceebert) é psicóloga, terapeuta familiar, professora, palestrante e escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua em atendimentos presenciais e online (individual, casal e família). Membro e docente da EIRENE do Brasil.